Ezequiel 34:3-4 - "Vocês
comem a coalhada, vestem-se de lã e degolam o gado cevado, mas não alimentam o
rebanho. Vocês não fortaleceram a fraca, não curaram a doente, não enfaixaram a
ferida, não trouxeram de volta a desgarrada e não procuraram a perdida. Vocês
têm dominado sobre elas com dureza e crueldade."
A trágica notícia do
homem de 49 anos que faleceu após esperar mais de 12 horas por atendimento em
uma UPA no Distrito Federal evoca indignação e vergonha. Morrer na antessala do
socorro é o ápice da desumanização. É o resultado de um sistema que transforma
vidas em números invisíveis.
Para nós, líderes e
pensadores cristãos, esse cenário precisa ir além da denúncia social. Ele deve
servir como um espelho incômodo. Quantas pessoas estão, neste exato momento,
morrendo silenciosamente nas "antessalas" das nossas comunidades de fé?
O Veredito Bíblico
Contra a Negligência
A denúncia contra
lideranças e comunidades que ignoram a dor do rebanho não é um debate moderno.
Ela está no cerne da mensagem profética das Escrituras. No livro do profeta Ezequiel
34:3-4, Deus emite um julgamento severo e cirúrgico contra os pastores de
Israel que falharam na missão do acolhimento:
"Vocês comem a
coalhada, vestem-se de lã e degolam o gado cevado, mas não alimentam o rebanho.
Vocês não fortaleceram a fraca, não curaram a doente, não enfaixaram a ferida,
não trouxeram de volta a desgarrada e não procuraram a perdida. Vocês têm dominado
sobre elas com dureza e crueldade."
Este diagnóstico bíblico
descreve com precisão a burocratização da fé. Quando a estrutura eclesiástica
se preocupa mais em manter o sistema funcionando do que em curar os feridos,
nós repetimos o erro dos antigos pastores de Israel.
A Burocracia da Graça
e o Protocolo do Altar
Assim como o colapso da
saúde pública mata por lentidão, a institucionalização rígida das igrejas tem
sufocado o acolhimento. O ativismo religioso e a obsessão pela performance
litúrgica criaram estruturas eficientes em eventos, mas falhas em misericórdia.
Precisamos encarar a
realidade da omissão comunitária:
- Triagem baseada em conveniência: Atende-se rápido quem traz recursos ou
status, enquanto os "quebrantados de coração" esperam na fila da
indiferença.
- Profissionais da fé ausentes da dor: Líderes blindados por agendas lotadas
tornam-se inacessíveis para quem está em estado de emergência espiritual.
- Rituais vazios de presença: O culto termina, as luzes se apagam, e o
indivíduo que buscou socorro para sua depressão ou crise existencial volta
para casa sem ter sido enxergado.
Cristo e a Teologia do
Atendimento Imediato
Nos Evangelhos, Jesus
rompia a burocracia religiosa de Sua época para atender quem clamava. Ele
parava procissões para curar e ignorava protocolos para acolher os
marginalizados. A teologia de Jesus não conhece o conceito de "volte
amanhã" para a dor humana.
Uma comunidade que falha
em acolher o necessitado trai sua própria essência. Se o nosso discurso
teológico é impecável, mas a nossa prática comunitária deixa pessoas perecerem
por solidão e desamparo sob o nosso teto, tornamo-nos cúmplices de uma negligência
crônica.
A igreja foi chamada para
ser um pronto-socorro da alma. É hora de abrir as portas das lideranças, descer
dos altares do isolamento e garantir que ninguém precise morrer esperando pelo
abraço de Deus que nós deveríamos dar.
Em Cristo,
João Augusto de Oliveira









