Texto Base: (I João 2:20-27)
INTRODUÇÃO – O que é teologia?
Teologia é o estudo intelectual e sistemático sobre a natureza de Deus, do
divino e das crenças religiosas. A palavra vem do grego Theos (Deus) e Logos
(palavra, estudo, razão). Em resumo: é a tentativa humana de organizar e
entender o que muitas vezes parece transcendente.
Não escrevo estas linhas contra o estudo da
teologia; sou estudante da área há anos e reconheço sua importância, bem como a
capacitação advinda do estudo sistemático de uma teologia saudável e boa.
Contudo, ao longo do tempo, tenho observado fenômenos no seio da cristandade
que não consigo mais ignorar e gostaria de expor alguns deles, sucintamente,
nesta reflexão.
O
comportamento dos atuais estudantes de Teologia
Vejo hoje uma leva enorme de pessoas (jovens ou
maduras) que se dedicam ao estudo da teologia — seja de forma autodidata ou
através de cursos, seminários, EAD ou presencialmente em institutos e
faculdades. Louvo a Deus por isso. A expansão do conhecimento é bela e faz a
igreja crescer em “graça e conhecimento” dos fundamentos da fé cristã.
O problema começa quando alguns desses estudantes
não sabem conter o "bom depósito" que lhes é confiado e se tornam
soberbos, arrogantes e cheios de si. Tenho encontrado alguns que parecem nem
pisar no chão de tanta soberba em face dos estudos que realizam.
No meu entendimento, o estudo da boa e sadia
teologia deveria nos tornar mais humildes, reflexivos e cônscios de nossas
limitações, dispostos a respeitar aqueles que não tiveram acesso a esse mundo
maravilhoso. Atrevo-me a dizer que, para algumas pessoas, a teologia "fez
mal"; elas deveriam rever seus conceitos ou abandonar o estudo
completamente antes que sejam destruídas pela corrosão interna da jactância.
Como
deve se comportar um verdadeiro teólogo?
O teólogo é como um guia, um farol colocado por
Deus na igreja para iluminar o caminho da boa doutrina e conduzir o povo a
pastagens verdejantes. Contudo, ele deve redobrar a vigilância sobre si mesmo
para não cair nos laços do diabo e ser consumido pelo mal de se achar superior
aos demais.
Cito aqui o saudoso Dr. Enéas Carneiro: “A
diferença entre um astrofísico e uma pessoa que limpa o chão é apenas a
quantidade de informação”. Isso serve perfeitamente para os nossos
teólogos. Você não é melhor do que ninguém dentro da igreja; portanto, comporte-se
como tal.
Infelizmente, uma grande parcela dos arrogantes nem
sequer possui uma formação teológica sólida (graduações presenciais,
pós-graduações ou mestrados), mas sim apenas cursos básicos e, de repente,
acham-se "donos da bola". Agem como se fossem os maiorais da letra
cristã, julgando as pregações de quem estudou menos e averiguando cada palavra
da saudação dos mais simples.
Meus irmãos, vamos ter consciência e deixar a
soberba de fora, pois na obra de Deus não há espaço para ela (Tiago 4:6; I
Pedro 5:5 e Provérbios 3:34). Prefiro mil vezes um irmãozinho simples e com
pouco acesso à informação do que um "teólogo de araque" que se acha o
rei do pedaço.
Sr.
Teólogo, seja humilde
A maior das virtudes humanas é a humildade. Ela tem
passagem em todo lugar. Seja você alguém de poucas posses ou um trilionário,
analfabeto ou doutor: se tiver humildade, terá meu respeito e admiração.
Humildade: Frequentemente
confundida com timidez ou pobreza, seu significado é muito mais potente.
Etimologicamente, vem do latim humus (terra ou solo). Ser humilde é
estar aterrado — com os pés firmes na realidade. Humildade é viver na verdade:
- Se você é bom em algo, reconheça com gratidão
(sem soberba).
- Se falhou, admita o erro sem desculpas.
Como dizia Santa Teresa de Ávila: “A humildade é
andar na verdade”. É o fim das máscaras. Ou, como definiu C.S. Lewis: “A
humildade não é pensar menos de si mesmo; é pensar menos em si mesmo”. O
humilde não gasta energia provando seu valor; ele foca no que é importante: o
próximo e o divino.
As
Virtudes do Teólogo
- Seja honesto: Ame a
verdade mais do que sua denominação. Não "torte" o texto sagrado
para dizer o que você quer ouvir. Admita quando um argumento for fraco.
- Tenha amor (caridade):
Teologia sem caridade vira ideologia ou arma de arremesso. Estude para
servir, não para vencer debates. Se o conhecimento gera arrogância em vez
de compaixão, algo deu errado.
- Seja dócil: Tenha
capacidade de ser ensinado. Ouça a tradição e a comunidade. O teólogo
isolado corre o risco de virar um herético ou apenas alguém insuportável.
- Tenha rigor e diligência:
Teologia exige estudo sério (história, filosofia, contextos). Fuja do
"achismo".
- Seja paciente e silencioso: Nem
tudo tem respostas simplistas. Saiba calar para ouvir a Deus.
CONCLUSÃO
Em última análise, a teologia não serve para nos
tornar maiores que os outros, mas para nos tornar menores, a fim de que a
glória de Deus apareça. Se o nosso estudo não se traduz em joelhos dobrados e
mãos estendidas para servir, ele é apenas ruído intelectual. Que a nossa busca
pelo conhecimento seja sempre acompanhada pela unção que ensina todas as coisas
(I João 2:27), lembrando-nos de que o objetivo final da teologia não é
apenas conhecer sobre Deus, mas conhecer a Deus. Que o nosso logos
(razão) nunca esteja desacompanhado do agape (amor), para que não
sejamos "teólogos de papel", mas faróis vivos da verdade que liberta
e da humildade que aproxima.
Portanto, responda honestamente: para que tem
servido a sua teologia? Se ela serve como pedestal para sua soberba, ela é sua
ruína. Mas, se ela serve como humus — solo fértil onde crescem o amor, a
paciência e o serviço — então ela é divina. Não precisamos de "donos da
verdade" que julgam a letra alheia; precisamos de servos que usem o saber
para curar e guiar. Que sua teologia o tire do gabinete e o coloque no chão da
realidade. Afinal, diante da imensidão de Deus, o verdadeiro teólogo é aquele que,
quanto mais estuda, mais reconhece o quanto ainda precisa aprender.
A boa teologia gera vida. Ela exige rigor, mas
doçura no trato; profundidade, mas simplicidade na comunhão. Que possamos
abraçar a humildade, entendendo que a diferença entre nós e o irmão mais simples
nunca será a nossa superioridade, mas apenas a nossa responsabilidade sobre o
que recebemos. Que Deus nos transforme em teólogos conforme o Seu coração:
humildes, honestos e transbordantes em caridade.
Em Cristo, João Augusto de Oliveira


