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Por: João Augusto de
Oliveira
Trinta anos de caminhada
na fé pentecostal — o equivalente a cruzar da década de 1990 até os dias atuais
— oferecem uma perspectiva única e privilegiada. Quem viveu essa trajetória não
testemunhou apenas a passagem do tempo, mas uma das transformações culturais,
tecnológicas e eclesiásticas mais profundas da história do movimento evangélico
no Brasil.
Lembrar daquela época não
é mero apego ao passado, mas um exercício necessário de memória espiritual. Há
três décadas, a vida da igreja pulsava em uma frequência muito diferente. O
pentecostalismo não contava com o conforto dos grandes templos climatizados,
com a tecnologia dos telões de alta definição e nem com a visibilidade das
redes sociais. No entanto, havia uma densidade na presença de Deus, um
quebrantamento no altar e uma sede de busca que preenchiam cada canto das
congregações.
À medida que a igreja
cresceu, modernizou-se e conquistou espaços na sociedade, muitas coisas
mudaram. Algumas melhorias trouxeram maturidade e estrutura; contudo, pelo
caminho, parece que deixamos transbordar partes essenciais da nossa própria
identidade.
Ao olhar pelo retrovisor
dessa jornada de 30 anos, esta reflexão saudosista percorre as transformações
mais marcantes da nossa história — confrontando a nostalgia do que ficou com as
realidades do tempo presente.
1. A perda das
disciplinas de busca: Cultos de oração e vigílias
- O passado: Os cultos de oração no meio da semana não eram reuniões
secundárias; eram o motor da igreja. As vigílias pentecostais — que
atravessavam a madrugada até o amanhecer — eram momentos de intenso
clamor, lágrima e quebrantamento. Dobrar os joelhos no chão de taco de
madeira por horas a fio era a prática comum de quem buscava a face de Deus
sem pressa e sem olhar para o relógio.
- O presente: A rotina acelerada e a busca pelo conforto encurtaram os cultos
de doutrina e as reuniões de oração. As vigílias de madrugada tornaram-se
raras, muitas vezes substituídas por programas de poucas horas no início
da noite. O espaço para a intercessão demorada e para a oração no Espírito
cedeu lugar a cronogramas enxutos e focados na pontualidade.
2. O Batismo no
Espírito Santo: De regra no culto à raridade
- O passado: O batismo no Espírito Santo com a evidência do falar em novas
línguas não era um evento esporádico ou um detalhe secundário; era uma
experiência viva e esperada como regra em cada culto. Havia momentos em
que o pregador nem conseguia concluir a mensagem, pois o "fogo
caía", o povo começava a glorificar e fiéis eram batizados
simultaneamente no corredor ou no altar.
- O presente: O falar em línguas e o mover dos dons espirituais tornaram-se
menos frequentes no dia a dia da congregação. Em muitos lugares, a busca
genuína pelo revestimento de poder foi empurrada para retiros específicos,
deixando os cultos públicos com uma dinâmica mais formal e menos propensa
ao avivamento espontâneo.
3. A pregação: A unção
do Espírito vs. Teologia fria e rasa
- O passado: As pregações avivadas eram geradas no "quarto de
oração" e no estudo debruçado sobre a Bíblia Sagrada. Eram mensagens
pregadas por homens e mulheres cheios de autoridade espiritual, cuja
Palavra vinha como um martelo que quebra a rocha: confrontava o pecado,
produzia profundo arrependimento, trazia cura e gerava salvação genuína.
- O presente: O púlpito contemporâneo frequentemente transita por dois
extremos: ou mensagens superficiais pautadas em autoajuda, ou uma
exposição puramente acadêmica, cerebral e fria. Embora o estudo teológico
seja valioso, quando se descola da unção e da vida de oração, ele se
transforma em uma palestra sem vida, incapaz de mover o coração e
transformar o pecador.
4. Da simplicidade dos
templos ao "clima de evento"
- O passado: Os templos eram modestos — salões alugados, bancos de madeira e
iluminação simples —, mas a presença divina era avassaladora. O louvor era
puxado no gogó, no acordeom, no trompete ou no pandeiro, com os hinos da
Harpa Cristã cantados em uníssono por toda a igreja. Havia um temor solene
misturado com a liberdade de dar um "glória a Deus" bradado do
fundo da alma.
- O presente: A profissionalização dos ministérios de louvor, os recursos de
iluminação, os sistemas de som sofisticados e a estética moderna trouxeram
ordem, mas muitas vezes criaram uma atmosfera de espetáculo. Ficou a
execução perfeita da música, mas, em muitos momentos, sente-se a falta
daquela adoração despretensiosa onde a única atração era a glória de Deus.
Preservando o Altar Aceso
Recordar esse tempo não é
cultuar o passado por mero saudosismo, mas lembrar de onde viemos para não
perder a nossa essência. As ferramentas modernas e o acesso ao conhecimento têm
o seu valor, mas nada substitui o joelho no chão, a lágrima no altar, a
pregação ungida e o fogo do Espírito Santo que queimava no peito da igreja de
antigamente.
Que possamos olhar para
os últimos 30 anos não apenas com saudades, mas com um renovado desejo de
clamar: "Aviva, ó Senhor, a tua obra no meio dos anos".
Como tem sido para
você observar essas mudanças na sua caminhada de fé? Deixe o seu comentário
abaixo e compartilhe as suas memórias.


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