Não é segredo para ninguém: a Igreja Evangélica brasileira atravessa
uma de suas maiores crises doutrinárias, teológicas e administrativas.
Quem nunca se deparou com problemas dessa natureza dentro de sua
própria comunidade local? A verdade é que ninguém, em sã consciência, teria a
coragem de atirar a “primeira pedra”.
Se fôssemos listar aqui cada falha identificada e o nível de
insatisfação de milhares de fiéis, vinte ou trinta páginas não seriam
suficientes. Por isso, convido você a refletir sobre quatro dos problemas mais
gritantes da atualidade.
1. O Desaparecimento da Sã Doutrina
A palavra “doutrina” mal é citada em muitos templos Brasil afora.
Infelizmente, criou-se em torno dela uma conotação pejorativa. Quando o termo
vem à tona, muitos sentem aversão imediata, associando-o ao legalismo religioso
e ao falso moralismo.
Mas, independentemente do que pensa a maioria, o que as Escrituras
dizem sobre a importância da doutrina?
📖 O que diz a
Bíblia:
- Tito 2:1 – "Tu,
porém, fala o que convém à sã doutrina."
- 1 Timóteo
6:3 – "Se alguém ensina alguma outra doutrina e não se
conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo..."
- João 7:16 – "Jesus
lhes respondeu e disse: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me
enviou."
- 2 Timóteo
4:3 – "Porque virá tempo em que não suportarão a sã
doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores
conforme as suas próprias concupiscências..."
- 1 Timóteo
4:16 – "Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua
nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos
teus ouvintes."
Esses versículos demonstram que a doutrina bíblica não é um fardo
moralista, mas a base para a saúde espiritual da comunidade local.
2. O Silenciamento do Púlpito: Onde Está a Pregação?
Quero deixar claro: não tenho absolutamente nada contra o louvor.
Quando liderado por músicos cristãos comprometidos com a santidade, o louvor é
uma ferramenta indispensável ao culto.
No entanto, o que vemos hoje é o período musical suprimindo
gradativamente o tempo que deveria ser dedicado à ministração da Palavra.
Tornou-se comum reservar apenas 10 ou 15 minutos para o sermão. Será essa uma
atitude saudável?
📢 A primazia
da Palavra:
- 2 Timóteo
4:2 – "Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer
não, corrige, repreende, exorta..."
- Lucas 9:2a – "E
enviou-os a pregar o reino de Deus..."
- 2 Coríntios
2:12 – "Ora, quando cheguei a Trôade para pregar o evangelho
de Cristo..."
- Atos 10:42 – "E
nos mandou pregar ao povo e testificar que ele é quem foi constituído por
Deus..."
Um dos pilares dos Reformadores (Lutero, Calvino e Zuínglio) foi
justamente devolver à pregação o centro do culto público. Infelizmente, a
igreja atual caminha na direção oposta, desfazendo o legado da Reforma.
3. Mensagens de Autoajuda vs. Teologia da Ganância
Não sou contra o encorajamento emocional, muito menos contra a
prosperidade honesta de quem quer que seja. Contudo, causa profunda indignação
ver supostos pregadores utilizando o púlpito sagrado para proferir discursos de
autoajuda humanista como se fossem a genuína Palavra de Deus.
Soma-se a isso a ênfase hiperbólica dada à chamada Teologia da
Prosperidade, que carece de fundamentação bíblica e assemelha-se mais a uma
"Teologia da Ganância e da Avareza".
Ao observar a vida dos que são iludidos por esse ensino, nota-se que
conceitos como salvação, santidade e temor de Deus são ignorados. O sentimento
dominante passa a ser a cobiça material, gerando uma busca desenfreada por
riquezas em detrimento da família, da saúde e do relacionamento com o Criador.
4. O Escândalo do Dízimo: Entre Promessas Mirabolantes e
Ameaças
O termo “ameaças” pode parecer pesado, mas reflete a realidade de
muitos altares contemporâneos. Embora eu apoie a generosidade voluntária para a
manutenção da igreja e o sustento missionário, o formato atual tornou-se um
escândalo escancarado.
Certa vez, ouvi de um pastor a afirmação absurda de que o crente não
dizimista perderia a salvação. O que o dízimo tem a ver com a salvação da alma?
- A salvação
é uma obra consumada e perfeita de Cristo no Calvário.
- Se a
contribuição financeira garantisse a salvação, o sacrifício da cruz teria
sido desnecessário.
Para validar tais disparates e criar medo nos fiéis, usa-se o texto
bíblico completamente fora de contexto. Vamos analisar os dois argumentos mais
comuns:
O Mito de Malaquias 3:10
📜 "Trazei
todos os dízimos à casa do tesouro..."
À primeira vista, o texto parece respaldar os pregadores modernos. No
entanto, essa exortação foi dirigida por Malaquias estritamente aos judeus sob
o pacto da Lei Mosaica, e não aos cristãos debaixo da Nova Aliança.
A menção direta de Jesus ao dízimo (Mateus 23:23) expõe a hipocrisia
dos fariseus e não serve de base doutrinária para a Igreja. Jesus não coletou
dízimos, Pedro não ensinou sobre isso, e Paulo — o apóstolo dos gentios, autor
de 13 epístolas — não faz uma única alusão ao dízimo ao instruir as igrejas
sobre finanças.
Quem é o "Devorador" de Malaquias 3:11?
📜 "E por
causa de vós repreenderei o devorador, e ele não destruirá os frutos da vossa
terra..."
O termo "devorador" nesse contexto histórico não se referia
a uma entidade demoníaca, mas a pragas agrícolas reais (como gafanhotos
e lagartas) que assolavam as lavouras de Israel. Atribuir esse texto a uma
batalha espiritual contra demônios financeiros na Igreja de hoje é forçar a
interpretação bíblica de maneira irresponsável.
Conclusão: Por uma Honestidade Pastoral
Infelizmente, membros que não contribuem com dízimos são
frequentemente tratados com desdém, rotulados como amaldiçoados e privados de
exercerem ministérios básicos.
Se a liderança eclesiástica deseja adotar o dízimo como sistema de
arrecadação, que o faça com honestidade argumentativa.
Oriente os membros a ofertarem por amor, gratidão e desapego
material, e não por meio de manipulações teológicas que restabelecem sobre os
ombros dos fiéis um jugo de maldição que Jesus Cristo já quebrou
definitivamente na cruz.
Enfim, poderia eu citar aqui vários problemas adicionais que precisam
ser corrigidos com urgência, para que a Igreja retorne à simplicidade, pureza e
poder do Evangelho de Cristo.
Em Cristo, João Augusto de
OLiveira



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